
O que fazer quando não se tem vontade de fazer nada??? Ando assistindo muitos filmes ultimamente, e no momento to fazendo uma retrospectiva Sokurov e Tarkovskij e, obviamente, tenho muito a comentar sobre estes dois grandes diretores e suas obras, mas simplesmente não consigo escrever... Algo meio "writer's block"??? Se bem que eu não tenho cacife suficiente para ser chamada de "escritora", então acho que esta expressão não vem ao caso... Sei lá, a coisa toda "non va avanti" estes dias, talvez por conta do peso dos últimos dias em Bologna, talvez porque vi uns filmes muito ruins que vou me abster de comentar (leia-se Indiana Jones...) ou talvez porque simplesmente não ando com a cabeça pra escrever. Gostaria de ter o dom de Jerry Seinfeld e escrever sobre o nada... Mas nem isso ta saindo. Então vou desencanar deste post e prometo que volto a escrever quando estiver um pouco mais inspirada... Vamos lá, vou tomar coragem e assistir "Arca Russa", quem sabe Sokurov me da umas idéias... Por enquanto vamos continuar com Neruda, ja que eu ando numa fase poética...
Brincas todos os dias com a luz do Universo.
Sutil visitadora, chegas na flor e na água.
És mais do que a pequena cabeça branca que aperto
como um cacho entre as mão todos os dias.
Com ninguém te pareces desde que eu te amo.
Deixa-me estender-te entre grinaldas amarelas.
Quem escreve o teu nome com letras de fumo entre as estrelas do sul?
Ah, deixa-me lembrar como eras então, quando ainda não existias.
Subitamente o vento uiva e bate à minha janela fechada.
O céu é uma rede coalhada de peixes sombrios.
Aqui vêm soprar todos os ventos, todos.
Aqui despe-se a chuva.
Passam fugindo os pássaros.
O vento. O vento.
Eu só posso lutar contra a força dos homens.
O temporal amontoa folhas escuras
e solta todos os barcos que esta noite amarraram ao céu.
Tu estás aqui. Ah tu não foges.
Tu responder-me-às até ao último grito.
Enrola-te a meu lado como se tivesses medo.
Porém mais que uma vez correu uma sombra estranha pelos teus olhos.
Agora, agora também pequena, trazes-me madressilva,
e tens até os seios perfumados.
Enquanto o vento triste galopa matando borboletas
eu amo-te, e a minha alegria morde a tua boca de ameixa.
O que te haverá doído acostumares-te a mim,
à minha alma selvagem e só, ao meu nome que todos escorraçam.
Vimos arder tantas vezes a estrela d'alva beijando-nos os olhos
e sobre as nossas cabeças destorcem-se os crepúsculos em leques rodoiantes.
As minhas palavras choveram sobre ti acariciando-te.
Amei desde há que tempo o teu corpo de nácar moreno.
Creio-te mesmo dona do Universo.
Vou trazer-te das montanhas flores alegres, "copihues",
avelãs escuras, e cestos silvestres de beijos.
Quero fazer contigo
o que a primavera faz com as cerejeiras.
Pablo Neruda