
Finalmente fui pra Sicilia, terra da máfia, dos cannoli e das mais belas paisagens da Itália. Fiquei maravilhada com os sicilianos, tudo me parecia saído de um filme italiano da década de 60. Talvez porque aquele lugar tenha realmente parado no tempo, ou porque eu sempre tendo a obter minhas referências na sétima arte... Seja como for, a Sicilia é a Itália que eu não conhecia e, depois de alguns anos passados na velha bota, acreditava mesmo que só existisse estampada na parede de cantinas no Bexiga. No norte da Itália não se ve muitos motorinos, roupas penduradas nos varais no meio da rua ou pessoas gritando e gesticulando. Tudo é muito europeu. Ninguém dá a minima pra você, nem se você estiver morrendo de dor, fome ou frio no meio da rua, ninguém te pede desculpas por ter te dado um encontrão brusco no meio da rua, ninguém te oferece um café, ninguém te sorri, enfim,
nessuno ti caga, em bom e velho italiano. Muito europeu. Já a partir de Roma para baixo, a coisa muda de figura. Como abaixo de Roma eu só tinha estado em Napoli, e por muito pouco tempo, minha experiência italiana se resumia a Milano e Bologna, duas cidades frias e chatas. A Sardegna é um mundo a parte, então, deixarei de lado por enquanto. Mas a Sicilia é tudo aquilo que eu sempre imaginei, como os chefes de família gritando à mesa, com a tecnologia ainda resistindo a chegar, com a paisagem ária e casas caindo aos pedaços. E, o principal: a comida!! Siciliano que é siciliano gosta de comer bem, falam de comida 90% do tempo e fazem questão que você, visitante estrangeiro, coma pelo menos um pouco de tudo. Óleo extra virgem lá vem só do quintal de casa, assim como o
sugo di pomodori e os vinhos. Nada de lataria, lá é mamma na cozinha o dia todo fazendo primo e secondo piatto, dolce e caffè, a refeição completa, e sem repeteco no dia seguinte! Não é a toa que eles não sabem falar de outra coisa! De qualquer forma, a Sicilia parou sim no tempo. Mulher lá tem que casar, ter filhos e cuidar da casa. Não preciso nem dizer que fui vista como uma louca quando cheguei carregando livros de Dostoevskij, falando das viagens que fiz por conta própria e pregando a igualdade dos sexos! Depois de várias discussões com italianos locais, deixei de lado a minha ânsia de entender o modo a antiga dos sicilianos e fui fazer turismo. Meus queridíssimos amigos sicilianos me receberam muitíssimo bem, e pude ver a bela cidade de Catania, que fica aos pés do Etna, Messina e seu famoso stretto, que quase quase encosta na Calábria, Taormina, com seu teatro romano do qual se pode ouvir uma sinfonia de Beethoven e ao mesmo tempo admirar a praia e o Etna a noite, com um ponto vermelho de lava bem no topo (sim, fui ver a nona de Beethoven lá...), Cefalù, uma das cidades mais lindas que já vi e Palermo, capital movimentadíssima, com um trânsito pra lá de caótico. Sim, tudo aquilo que você já pensou sobre a Itália é verdade. E ta tudo lá, na Sicília e no resto do sul deste país. Mesmo com alguns lugares perdidos no tempo e sua forma super retrógrada de pensar, mesmo como o problema da imigração e o Berlusconi no poder... Meu nonno tinha razão, a Itália é maravilhosa!